Hugh Laurie fala como foi dirigir um episódio de House

Não, o repouso para Laurie serve para se recuperar de uma tarefa ainda mais árdua: falar inglês americano o tempo todo.

“Você está bagunçando minha tarde”, disse Laurie em tom agradável, em seu inglês distinto e com sotaque de Oxford. (Distinto porque ele nasceu em Oxford e se educou em Eton e na Universidade de Cambridge.)

Depois de um interlúdio para entrevista na versão natural de seu inglês, ele disse que teria de retornar ao que vem reproduzindo de forma altamente convincente nos seis anos de trabalho como um atormentado e genial médico especializado em diagnósticos, em um hospital de Nova Jersey. Muitos fãs ainda se espantam quando constatam seu sotaque britânico em entrevistas. (Quando Bryan Singer, que dirigiu o piloto da série, assistiu ao vídeo do teste de Laurie, ficou impressionado com a competência daquele ator norte-americano obscuro para definir a personalidade do personagem.)

No estúdio, Laurie se apega persistentemente ao sotaque americano mesmo quando não está gravando, porque, diz, “para mim é difícil ficar alternando. Prefiro, a fim de facilitar as coisas, não chamar atenção para a questão. Não quero que a equipe tenha de se preocupar em distinguir se eu disse alguma coisa em modo britânico ou americano. Isso me incomodaria”.

No entanto, por todo um episódio, o que será transmitido pela Fox na noite desta segunda-feira, Laurie se viu compelido a falar bastante com a equipe de filmagem em sua voz natural. Pela primeira vez no seriado, ele assumiu o comando de um episódio como diretor.

“A ideia não foi minha”, disse Laurie, reconhecendo que a missão lhe havia causado certo nervosismo. “Assim que um ator começa a dirigir, o projeto passa a parecer uma daquelas coisas de vaidade, não é?”

Katie Jacobs, produtora executiva de House, afirmou em mensagem de e-mail que “na verdade nós estamos pedindo que ele dirija alguns episódios há anos”. Ela acrescentou que “creio que terminamos vencendo pelo cansaço. Até agora não consegui descobrir alguma coisa que Hugh não faça muito bem, e por isso tinha certeza de que qualquer episódio dirigido por ele seria ótimo. Mas acima de tudo achei que seria bom para o moral de toda equipe, ter o nosso líder como diretor”. Ela concluiu: “Estou muito feliz por ele ter aceitado”.

Laurie abordou a tarefa de forma entusiástica. “Eu realmente enchi a paciência de todo o mundo” com perguntas sobre enquadramentos e outros detalhes, diz. “O processo todo me fascinou completamente. Requer um elenco de competências raro e exigente, que variam de engenharia à capacidade de resolver problemas, e acima de tudo bom senso”.

A tarefa também o atraiu, afirma, devido a uma ou duas de suas fantasias recorrentes. Em uma delas, derivada diretamente do filme Aeroporto, o piloto adoece depois de comer frutos do mar estragados e a aeromoça sai pela cabine procurando alguém que possa pilotar o aparelho.

“Não digo que eu sairia empurrando os outros se houvesse alguém mais qualificado”, diz. “Mas, se ninguém mais quisesse a tarefa, eu adoraria tentar”.

E a segunda: “Há momentos em que imagino entrar em campo com a seleção inglesa na Copa do Mundo, e quanto tempo eu poderia ficar em campo sem a torcida perceber que não jogo nada? Um toque na bola? Dois toques? Dez segundos? Eu aguentaria um minuto?”

Laurie diz que não escolheu expressamente o episódio que desejava dirigir, ainda que a solução tenha sido boa para um quase novato (ele já havia dirigido um ou dois programas na TV britânica). “Eu sabia que seria algo de mais discreto; ninguém confiaria em mim para grandes sequências de ação”, disse. Ele comandou um episódio sobre um hospital em alerta e com todo o acesso bloqueado devido ao desaparecimento de um bebê. Segundo Laurie, “é uma versão um pouco expandida de uma história de gente presa em elevador”.

House fica trancado no hospital com um paciente que pode morrer em 24 horas. O paciente, interpretado por David Strathairn, é “uma espécie de fantasma do House futuro”, disse Laurie. “Ele está perto da morte e contempla sua vida com os anseios e arrependimentos que House subitamente percebe que poderia ter”.

Laurie disse que foi excelente contar com um ator veterano como Strathairn. “Ele tinha todo direito de estar apreensivo por trabalhar sob o comando de alguém tão inexperiente”, disse, “mas foi extremamente generoso”.

Além da interação com os colegas de elenco, Laurie disse que o que mais apreciou na experiência como diretor foi “o ritmo frenético da coisa”, acrescentando que “gosto de me preocupar. Se tenho tempo demais para pensar, começo a complicar as coisas de maneiras que elas não precisam ser complicadas”.

Gregory House continua a ser um homem altamente complicado, claro, se bem que Laurie o tenha conduzido em diversas viradas de trajetória, especialmente uma passagem por uma instituição psiquiátrica, no início da atual temporada. “É difícil, mas ele está pelo menos tentando alguma coisa”, disse o ator. “Ele reconhece a solidão em que vive. Por mais que esteja resignado a ela, é algo que lhe causa dor existencial, ainda assim. E ele precisa reconhecer que existe algo de reconfortante na amizade, no amor e no contato humano.”

Laurie, que na televisão britânica trabalhava principalmente em comédias (The Black Adder, Jeeves & Wooster), também encontrou humor em House: “A série é muito engraçada, de diversas maneiras. Há momentos de farsa escancarada, de humor rude. Em outros, é um humor verbal sofisticado.

“Ainda amo o personagem”, disse Laurie. E ele não está sozinho -além do sucesso do seriado na TV norte-americana, House se tornou um fenômeno mundial.

“Eu acho realmente estranho que a gente faça tanto sucesso no exterior”, diz. “É uma série tão verbal. Mas é traduzida para o português, italiano, russo e ainda assim sobrevive. É a série dramática mais assistida na Itália. Os franceses adoram. Não consigo entender”.

Talvez não seja tão incompreensível se adotarmos como contexto a inspiração do personagem: um detetive particular da Inglaterra vitoriana que, como Laurie define, “talvez seja a mais famosa marca da literatura”. Fã de Sherlock Holmes desde a infância, Laurie diz que sempre apreciou as muitas associações entre House e Holmes.

“Meu Deus, que lisonjeiro é me ver comparado àquele personagem”, diz o ator.

As filmagens da temporada de House já estão encerradas, e Laurie está se mudando temporariamente para um território não muito distante de seu lar ficcional no Princeton-Plainboro Teaching Hospital. Ele vai estrelar um filme independente chamado The Oranges.

O papel será certamente novidade para ele. “É um homem de modos suaves e alma gentil -uma alma perdida que encontra alguma coisa que vira sua vida do avesso”, diz Laurie, acrescentando apenas que “tudo gira em torno de um relacionamento romântico que perturba todas as partes envolvidas”.

E, sim, o personagem também é norte-americano. Mais trabalho com aquele sotaque.

“Há algumas coisas que recito a caminho do trabalho. Ouço alguma coisa em um programa de rádio, uma frase me chama a atenção e eu a repito sem parar”, diz. O sotaque nunca lhe soa perfeito, mas Laurie parece estar enganando bem.

“Acho que os norte-americanos são mais tolerantes com relação a sons diferentes”, disse.

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